Meentrega Dezembro

Confissões de um corpo que não é meu


POR: Juliana Seben
20-10-2021 - 10:29
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O meu corpo não pertence a mim.

É daqueles que o desejam, também dos que o desprezam, dos sem coragem de assumir suas próprias inseguranças e que são projetadas em mim.

É dos que o “comem”.

Dos que o assediam.

Dos que o repudiam.

Ele é usado nos grupos de WhatsApp de quem, no fundo, odeia mulheres.

É compartilhado em imagens por quem o enxerga como um bem comum.

É tomado como algo possível independentemente da minha vontade, basta o desejo.

Ele é exposto na roda de amigos no bar, na rua, em casa.

É escrachado por quem tem fobia à diversidade de formas.

É julgado por quem pensa que meu peito é pequeno demais ou minha coxa é grande demais.

Tudo é demais. Ou de menos.

Se eu mostro, sou puta.

Se escondo, sou santa.

Em movimento, é preciso respeitar os limites, caso contrário, é visto como um convite ao coito.

Ao corpo que amamenta não é permitido que se faça em público, meu mamilo é erotizado a qualquer custo.

Ao mesmo tempo, quando corpo de mãe, se torna imaculado e, por isso, só um tipo de comportamento é tolerado. 

Também fazem eu odiar meu corpo, que recebe essa herança de uma guerra injusta.

E luto contra o tempo, contra a gravidade, contra o caminho natural de envelhecer.

Meu corpo é filho, neto, bisneto de quem também perdeu a posse de sua própria morada. 

É público, e muito novo ou muito velho pra começar. A idade certa tem corpo masculino. 

Meu corpo usa o pronome possessivo errado, pois objeto que é, nem deveria se chamar de meu.

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