Tapejara da minha infância


POR: Fabrício Basso
07-08-2020 - 17:10
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Eu ando por Tapejara desde que me lembro, desde que nasci. Tapejara foi a cidade da minha infância: até hoje sonho com as ruas sem asfalto, com pouquíssimo movimento, a praça cheia de crianças. Eu me lembro de ir e voltar da escola a pé pra casa: a saudosa Escola Medianeira de Todas as Graças, ao lado da igreja. A Biblioteca Municipal Eduardo Damiani era outro destino frequente: li uma boa parte da sua bonita seção infantil...Naquela época, caminhávamos sem medo, meus amigos e eu: as ruas de Tapejara eram sempre tão pacíficas, os carros tão tranquilos. Todo mundo se conhecia: ou, pelo menos, eram poucos os estranhos. Tapejara sempre foi familiar, para mim.


Eu me lembro de caminhar por muitos caminhos em Tapejara: eu passeava pelos bairros de casas bonitas, com crianças cheias de brinquedos, e também pelos bairros não tão bonitos, com suas casas meio pobres, meio tristes. No microcosmo que era a minha cidade – e Tapejara sempre foi e sempre será a minha cidade, mesmo que eu tenha nascido em Sananduva - fui conhecendo e entendendo como era o mundo; e a cidade crescia, e eu também. Quando completei treze anos, nos mudamos parcialmente, minha família e eu: morávamos em duas casas, uma em outra cidade durante a semana e na nossa, de sempre, nos finais de semana. Me afastei um pouco, mas não muito: porque “onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração”, e não há tesouro maior que a casa da nossa infância. Ou talvez haja, sim: a cidade da minha infância é um dos meus grandes tesouros, para onde sempre retorno nas minhas memórias mais caras. 


Eu me lembro de voltar a Tapejara quando tinha dezoito anos: era um retorno breve, eu estava prestes a ir embora, foi o ano em que me preparei para o vestibular e vim morar em Porto Alegre. A cidade não era mais tão pequena: diferente de tantas cidades próximas, Tapejara cresceu e apareceu. Pessoas de vários lugares vinham trabalhar nela, nas indústrias que se expandiam, no comércio, que continuou crescendo até hoje: a cidade progredia a olhos vistos. O asfalto há muito tempo tinha tomado as ruas; mas eu ainda tinha amigos que moravam ali, eu tinha uma parte da minha história que vai ser para sempre parte da história da cidade. Acho que é isso que faz uma cidade: um monte de pequenas histórias, um somatório de vidas e experiências das pessoas que moraram ou que apenas passaram por um lugar, e se sentiram, nem que por alguns instantes, parte dele. 


Confesso que hoje, quando volto a Tapejara, sinto um frio na barriga por ver tanta coisa diferente. A cidade está mais bonita, parece mais jovem do que nunca: e tem muito mais casas e prédios, sempre vejo alguma coisa nova quando a visito uma vez por ano. Mas sei que, de alguma forma, ela continua sendo aquela Tapejara da minha infância. Sei que ainda é a Tapejara que tive a felicidade de homenagear no hino que compus para ela:

“Neste chão/Construímos nosso lar/E o pão/Nossas mãos farão brotar/Tapejara, mãe gentil/Teus filhos são o teu melhor!”


Meu desejo é que Tapejara possa ser a cidade da infância feliz de muitas crianças, como foi – como é, e sempre será – a cidade da minha infância. Vida longa, querida Tapejara!


Fabrício Basso é músico e professor, ex-morador de Tapejara e autor do hino oficial da cidade


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