OPINIÃO

E ao findar outubro, será permitido se tocar?


POR: Juliana Seben
16-06-2020 - 10:04
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Esse mês tá todo mundo falando sobre o Outubro Rosa, o que é muito bom, porque isso desperta um cuidado que todos - homens e mulheres - devem ter, o de entender nosso corpo. E, embora nós, mulheres, frequentemos o médico mais do que os homens costumam fazer, ainda estamos em desvantagem sobre uma questão: o fato de que nos tocar é algo menos comum do que imaginamos.

A prova disso? Uma pesquisa realizada pela Durex Global Sex Survey revela que apenas 22% das mulheres conseguem chegar ao orgasmo durante a relação sexual. Enquanto que meninos são incentivados desde cedo, o assunto ainda é tabu quando envolve o sexo feminino, o que faz com que associemos a algo errado ou até mesmo sujo. Se a gente não se toca, não se olha, não se vê, fica muito mais difícil sabermos quando algo é normal no sentido fisiológico ou quando “algo errado não está certo”, com o perdão do meme.

O problema aqui é que não há campanha de Outubro Rosa suficiente para sensibilizar uma mulher que ouviu a vida toda que é feio descobrir seu próprio corpo. Também perde o apelo quando levamos em conta que incansavelmente recebemos a mensagem de que um corpo longe do padrão estampado no Instagram é inadequado e, por conta disso, não merece a atenção do olhar.

Sobre isto, essa semana a atriz Cleo Pires fez um desabafo sobre o problema que tem relacionado à comida. Em poucos meses ela ganhou alguns quilos e passou a sofrer ainda mais com os julgamentos do tribunal da internet, de amargurados que ganham voz e vez, blindados pelos seus dispositivos eletrônicos. Embora a declaração da atriz tenha uma potência gigantesca no sentido de questionar essa busca desenfreada por um “corpo perfeito”, já que é uma musa com alta representatividade, isso revela a crueldade como nós somos pressionadas a enxergar nossos corpos.

Isso tudo confirma o fato de que o corpo da mulher não é só dela. Ele não pode ser exposto, com roupas mais curtas ou decotadas, porque isso é indício de um objetivo escuso, como se fôssemos pra rua com a intenção de transar com o primeiro cara que abre a boca para dar uma opinião que, nem de longe, queremos ouvir. É encarado como um objeto, pronto para ser usado sem permissão, assediado.

Nossos corpos carregam a vida, amamentam e sangram. E mesmo assim não têm autonomia. Por isso, quando eu vejo as campanhas mandando a gente se tocar, eu retorno o verbo no imperativo: se toquem vocês e vistam esse rosa o ano todo. Incentivem em suas políticas públicas, escolas e casas que as mulheres se conheçam e tenham o corpo que quiserem. Não se calem diante de ofensas ou mesmo julguem alguém pela aparência.

Quem sabe a gente aproveita o outubro pra observar, além do corpo, o que nosso preconceito nos faz pensar?

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