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Opinião

06.10.2016

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Diferente, Mas nem Tanto

Por: Fernando Comiran - Historiador e Professor Universitário

 

Foi diferente. Nem tanto. Mas um pouco diferente.

Nas eleições municipais de Tapejara, em 2016, tivemos três novidades: 
a primeira delas foi, após 24 anos, a postulação de três candidaturas - 1) PMDB-PPS; 2) PDT-PSB-PT-PTB-PRB-PR; 3) PP. Três candidaturas em uma cidade marcada pela polarização da disputa soou estranho, em um primeiro momento, para as próprias candidaturas, que precisaram lidar - e estavam desacostumadas - com a costura de alianças e a organização da campanha eleitoral prevendo novos fatores e arranjos. Foi diferente também para o eleitor, que precisou, sem saber muito bem como fazer, retirar o "chip" – implantado ao longo de duas décadas - que dividia a política da cidade em dois lados: os "sosselistas" e os "peemedebistas". A reconfiguração da disputa com o lançamento de uma terceira nominata forçou o eleitor - o que julgo como fato positivo - a perceber as eleições como um exercício um pouco mais dinâmico. Foi diferente, afinal, quebrou a lógica binária da política local. Acredito que este cenário, com mais de duas candidaturas, se tornará recorrente nas eleições de Tapejara.

A segunda das novidades se deu por conta da participação mais efetiva dos meios de comunicação locais. A organização de dois debates entre os candidatos à Prefeitura, pela Rádio Tapejara, merece destaque: prendeu a atenção do eleitor, inseriu uma nova dinâmica ao repetitivo e pouco inovador processo eleitoral da cidade e, por isso, exigiu dos candidatos um maior cuidado e preparo ao debater e expor suas ideias e propostas. Além disso, permitiu que os eleitores percebessem, com maior clareza, os perfis e estratégias de cada candidatura, de cada candidato. Foi uma novidade, de fato, afinal, não ocorriam debates como este desde as eleições do ano 2000, entre Gilmar Sossella (PDT) e Beto Oliboni (PMDB).

Por fim, a terceira novidade foi a participação do "novo-velho" partido na cidade: o PSB, agora refundado por um conjunto de importantes, históricas e densas lideranças políticas que migraram do PMDB para este "novo-velho" grupo político. Essa movimentação, além de animosidades e ressentimentos, também trouxe ao pleito uma incógnita em relação à densidade eleitoral desse novo grupo. Levando em conta o número de votos nas eleições proporcionais como vetor de medição do tamanho de um partido, o PSB atingiu 14,68% dos votos, se inserindo, em não mais de um ano de atividade, no grupo dos grandes partidos da cidade, ao lado de PDT (13,29% dos votos proporcionais) e PP (15,06% dos votos para vereador). Uma pergunta que muito foi feita era de quantos votos o PSB levaria do PMDB para a oposição. Vejamos: nas eleições deste ano o partido situacionista obteve 45,99% dos votos proporcionais; já nas eleições de 2012, quando o PSB ainda fazia parte do PMDB, atingiram 46,67%. O número se manteve estável. Esse fato merece observação. Talvez, a resposta seja a mais óbvia de todas: o PMDB deixa a impressão de ter angariado, para suas candidaturas a vereador, a absoluta maioria dos pouco mais de mil novos votos na cidade em relação ao pleito de 2012, afinal, os demais Partidos, com exceção do PT, manteve estabilidade na votação entre os dois pleitos.

O argumento de que a entrada do PSB na oposição ao lado do PDT e a quebra da longeva parceira PDT-PP fossem determinantes para a vitória oposicionista é válido, porém, não linear ou absoluta. Na atual conjuntura, apenas uma coalizão de todos os partidos seria capaz de vencer o PMDB. Se os votos nas candidaturas proporcionais do PSB fossem descontados de Elton/Márcio (partindo do pressuposto de que o eleitor seguiu a orientação vereador/prefeito) e os votos do PP fossem somados aos votos do PDT, mesmo assim, teríamos uma vitória do PMDB. Isso sinaliza que o PMDB só perderia as eleições no cenário “todos contra o PMDB”. A manutenção da antiga coligação, sem os votos do PSB, seria insuficiente para a vitória da oposição. Resumindo: a saída do PP do antigo bloco de oposição contribuiu para a vitória do PMDB, porém, a vitória da oposição só seria possível com o acréscimo do PSB (e a manutenção do PP no mesmo bloco). Trocando em miúdos: o PMDB viu seu projeto ameaçado quando das divergências internas e formação do PSB, porém, conseguiu contornar aquela situação e garantir sua vitória quando “viu” o PP lançar candidatura própria. Sobre este movimento, apenas os bastidores mais profundos da política tapejarense podem elucidar os boatos que circulam pela cidade. Ou, aguardemos a composição do próximo governo e o posicionamento do Partido Progressista na Câmara de Vereadores.

Sobre a votação do PMDB é interesse prestar atenção nos seguintes números: obteve, nestas eleições, 6.021 votos para prefeito e 6.453 votos para seus candidatos a vereador. Estes números, se comparados aos resultados do Partido no pleito de 2012, indica uma pequena oscilação para baixo nos votos para Prefeito, que foram de 7.090 e, um pequeno crescimento nos votos para vereadores, já que em 2012 o partido atingiu 6.225 votos. À grosso modo, o PMDB perdeu aproximadamente 1000 votos para Prefeito. Seria apenas esse o peso da saída do PSB? Aparentemente não, pois é importante destacar que Tapejara possui 844 votos válidos há mais no pleito de 2016. Pode-se especular que o PMDB tenha atingido maior alcance nesse novo eleitorado: jovens e novos moradores da cidade.

Outro dado que merece ser observado diz respeito aos números relativos à votação do PP, que se lançou em candidatura solo nestas eleições. Sua candidatura a prefeito alcançou 2.620 votos e seus candidatos a vereador chegaram a 2.113 votos. Nas eleições passadas o mesmo partido obteve votação inferior entre seus candidatos a vereador: 1.876. Aparentemente a candidatura avulsa à Prefeito favoreceu a votação dos candidatos a Vereador (e aqui há que se considerar uma novidade nas eleições tapejarenses: o chamado “voto de protesto” em um candidato à Câmara Municipal, que angariou importante votação para a legenda). Porém, um exercício que pode ser feito é analisar os seguintes números: o PP atingiu 560 votos a mais que o PSB – forçando a comparação entre votos para prefeito versus votos para vereador. Essa leitura não é a mais correta a ser feita, porém, a única possível para pensar no “peso eleitoral dos partidos”. (Não há como mensurar quantos votos o PSB representou na majoritária, pois não concorreu com o candidato à Prefeito em candidatura avulsa).

Uma continuidade de comportamento eleitoral em Tapejara diz respeito às abstenções, votos brancos e nulos. E por aqui estamos na contramão da tendência nacional. Neste ano, as abstenções ficaram em 11,22%, contra 10,12% do pleito de 2012. Foram 1,81% de votos brancos, número levemente inferior aos 2,53% das eleições passadas. E, 2,23% dos votos foram anulados, mantendo o índice de 2012, que foi de 2,37%. Com isso, os votos válidos em Tapejara, nas eleições deste ano, corresponderam a 95,96% dos eleitores aptos, aumentando em 0,86% o mesmo índice do pleito de 2012. Estes números não se conectam com o cenário nacional e, aparentemente, indicam um forte engajamento da comunidade com os seus candidatos – o que não significa maior grau de politização - e, sim, o forte vínculo afetivo, familiar e “de favorecimentos” que caracterizam eleições em cidades de pequeno porte.

Observando os números de votos e representatividade dos partidos organizados na cidade e os contrastando com resultados anteriores podem-se apontar algumas considerações:
- PMDB: reforça seu posicionamento como maior Partido da cidade e, internamente, consolida a hegemonia de um grupo que alcançou o controle pleno do Partido. A legenda alcançou 6.453 votos para vereador.

- PSB: agora repaginado, em sua estreia alcança uma vitória menor do que a esperada – não atingiu o sucesso nas eleições majoritárias e elegeu apenas um vereador. A legenda conseguiu 2.060 votos nas eleições proporcionais. Seu futuro passará pelo trabalho executado na Câmara de Vereadores, seu posicionamento diante do Governo e o papel político a ser exercido, neste processo, pelo seu quadro político indicado à vice-prefeito na chapa derrotada no pleito. Arrisco dizer que, no cenário atual, com os partidos existentes na cidade, é o único que possui capilaridade para modernizar sua agenda política e liderar um movimento político para alternância futura.

- PDT: Não conseguiu recuperar o Executivo municipal e obteve 483 votos menos entre seus candidatos à Vereador. Padece de uma “síndrome do bambuzal" (nada cresce em torno de um bambu) onde novas lideranças não brotam à sombra de sua maior liderança política local. Com pouca renovação, seus mais densos quadros ainda são frutos do período 1997-2004, em que estiveram no comando da Prefeitura.

- PT: além de padecer de todos os males que o cenário nacional oferece, enfrenta, desde as eleições de 2012, um vazio político, com seu Diretório municipal desestruturado. Se o PT nacional precisará ser refundado, o Partido dos Trabalhadores de Tapejara também precisará ser “reinaugurado”. Apresentou apenas um candidato à Vereador que concorreu sem nenhum apoio partidário.

- PPS: se manteve estável em sua votação e renovou o mandato de seu Vereador. Aparentemente, seguirá com seu projeto de Partido auxiliar do governo municipal.
- PRB: em todas as eleições temos surpresas. Neste ano, foi a vez do PRB. Elegeu seu primeiro vereador e em um primeiro momento, dividirá espaço no mesmo campo partidário do PPS. Coligado à candidatura à Prefeito do PDT, seu posicionamento na Câmara deverá ser de oposição. (Cabe interpretar que a cadeira do PRB, somada à do PPS, reforça a capilaridade da câmara de vereadores - o que representa o enfraquecimento dos “grandes partidos” e o fortalecimento do “voto no indivíduo”, o que é cada vez mais recorrente).

- PP: Elegendo apenas um vereador e perdendo uma vaga no Legislativo municipal, não conseguiu alcançar o “voto decisivo” (o Governo alcançou maioria absoluta na Câmara com seis vereadores eleitos). Estará em uma situação delicada: se, por ventura, participar do governo, deixará claro qual foi, de fato, seu papel e intenção na disputa de 2016.

Sobre a Câmara de Vereadores cabe destacar a maioria absoluta alcançada pela coligação governista (PMDB-PPS) com seis vereadores. Dos 11 vereadores eleitos, 7 estarão em seu primeiro mandato, o que significa uma renovação de 63% da nominata, embora, há que se considerar que 6 vereadores na legislatura passada não concorreram nestas eleições.

Cabe também observar a centralidade do PMDB a partir destas eleições. O novo prefeito terá que liderar uma gestão que, pela natureza do processo político, após 8 anos de mandato e, sendo encaminhado para doze anos, sofrerá o desgaste natural de gestões seguidas pelo mesmo grupo político. Além desse desafio, guiará o município diante da possível aprovação da PEC 241, de autoria do governo de seu correligionário Michel Temer. A aprovação dessa peça de Lei, atingirá em cheio a execução de suas propostas de governo. Por outro lado, o novo prefeito poderá guiar seu mandato com um Partido em harmonia, diante da hegemonia interna alcançada pelo seu grupo. A maioria absoluta na Câmara de Vereadores também oferece um ponto positivo para seu mandato. Outro fator de evidente fortalecimento do PMDB nestas eleições é pelo sucesso alcançado pelo Partido em seu processo interno de renovação de quadros: terá um prefeito em primeiro mandato, um vice-prefeito jovem e que inaugura com sucesso sua trajetória política e, mais do que isso, de seus cinco vereadores eleitos, absolutamente todos estarão em seu primeiro mandato. Tudo indica que o grupo que alcançou a hegemonia interna do PMDB conduziu com sucesso a oxigenação interna de seus quadros (o que não significa oxigenar as ideias sobre políticas públicas). Esse talvez seja o maior obstáculo da oposição em eleições futuras.

Por fim, outro ponto a considerar, agora descolado dos resultados: não sei se por minha incapacidade em perceber diferenças ou na dificuldade das candidaturas divulgarem suas ideias, mas este processo eleitoral deixou visível a homogeneidade de projetos e concepções de políticas públicas entre as três candidaturas. Repito: pode ser minha fraqueza em não identificar diferenças entre elas, mas o que se apresentou, em termos de visões de cidade, foi o mais do mesmo. Infelizmente. Ou felizmente para quem se interessar em olhar diferente para Tapejara.

 

 

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